o corpo na cidade, a cidade no corpo

Em julho, apresentei a performance Expressando Cidades na Mostra Angel Vianna.

Com a orientação de Toni Rodrigues e a produção musical de Negalê Jones, ela foi construída a partir dos registros dos participantes do Roteiro de Sensibilização Urbana, realizada em maio, conforme registramos aqui.

O projeto Expressando Cidades é uma composição destas duas ações, na qual os corpos se relacionam com a cidade, registram este processo, para que a artista processe e traduza no seu corpo estas cidades descritas, mapeadas.

Na intenção de continuar este ciclo e aprofundar a pesquisa, levaremos o Roteiro de Sensibilização Urbana para o Seminário do Direito ao Corpo na Cidade, organizado pelo Coletivo em Silêncio.

Já tive contato com o Coletivo em Silêncio quando participei da Intervenção Silenciosa na Cinelândia, registrada aqui. De uma primeira conexão ainda muito leve e efêmera, parece que estamos criando possíveis fluxos de intercâmbios e comunicações.

Na próxima quinta-feira, dia 09/08, as 9:30, faremos uma apresentação do Roteiro de Sensibilização Urbana, na Ocupação Manuel Congo, na jornada O Corpo e o Meio Ambiente.

Por mais corpos se expressando e atuando na cidade!

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In July, I presented the Expressing Cities performance at the Mostra Angel Vianna.

With the guidance of Toni Rodrigues and the musical production of Negalê Jones, this performance was built based on the records that the participants of the Rout of Urban Sensibility did, in May, as we recorded here.

The Expressing Cities project is a composition of these two actions, in which the bodies relate to the city, record this process, so that the artist processes and translates these described, mapped cities in her body.

In order to continue this cycle and deepen the research, we will take the Rout of Urban Sensibility to Seminário do Direito ao Corpo na Cidade, organized by Coletivo em Silêncio.

I have already had a contact with the Coletivo em Silêncio when I participated in the Silent Intervention in Cinelandia, registered here. From a first connection that was still very light and ephemeral, it seems that we are creating possible flows of exchanges and communications.

On the next Thursday, 09/08, at 9:30 AM, we will make a presentation of the Rout of Urban Sensibility, in the Manuel Congo Occupation, on the journey The Body and the Environment.

For more bodies expressing themselves and acting in the city!

 

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por uma prática artística e urbana

No dia 20 de julho, fechamos um ciclo. Apresentei a tese “Artistic Actions in Public Spaces: toward an artistic and urban practice”, na Escola de Doutorado de Pesquisa da Università IUAV di Venezia. Cursar o Doutorado em Urbanismo nesta escola foi um presente e um desafio. Na verdade, foram vários desafios e este blog, expressing cities, foi uma forma de lidar com eles.

Dentre eles, está o processo de desterritorialização, de sair do meio académico, artístico e cultural de onde venho e ir para outra realidade. Estar lá e olhar para o Rio com olhos não-estrangeiros, mas distantes. Conhecer outros contextos, interagir com eles, mas não me fixar nunca, estar sempre à deriva, entre cidades, artistas e pesquisas.

Esta pesquisa só foi possível com a colaboração de pessoas incríveis que conheci neste período, que estão realizando ações na cidade que fortalecem o sentido de coletividade em meio a dinâmicas urbanas que expulsam moradores dos centros urbanos, que restringem as apropriações espontâneas, criativas e coletivas dos espaços públicos. Espero ter repercutido na tese as pulsações destas ações e destas pessoas na cidade, que geram, a meu ver, uma prática artística e urbana contínua.

Referindo a Jordi Claramonte, quando ele diz que a autonomia só existe num sentido coletivo, só tenho a agradecer a todas as pessoas que conheci neste percurso, todas elas me inspiraram e contribuíram para a conclusão deste trabalho. Eu sou porque nós somos.

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On July 20th, we closed a cycle. I presented the thesis “Artistic Actions in Public Spaces: toward an artistic and urban practice”, in the School of Doctorate Studies of the Università IUAV di Venezia. The opportunity of doing the Doctorate in Urbanism at this school was a gift and a challenge. In fact, there were several challenges and this blog, expressing cities, was a way to deal with them.

Among them, there is the process of deterritorialization, of leaving the academic, artistic and cultural milieu from where I come and going to another reality. To be there and look at Rio with non-foreign, but distant eyes. Getting to know different contexts, interacting with them, but never fixing myself, always being adrift, in a derive, in-between cities, artists and researches.

This research was only possible with the collaboration of incredible people I met during this period, who are carrying out actions in the city that strengthen the sense of collectivity in the midst of urban dynamics that expel urban dwellers, restricting the spontaneous, creative and collective appropriations of the public spaces. I hope I have reflected in the thesis the pulsations of these actions and of these people in the city, which, in my opinion, generate a continuous artistic and urban practice.

Referring to Jordi Claramonte, when he says that autonomy only exists in a collective sense, I only have to thank all the people I met on this journey, all of them inspired me and contributed to the conclusion of this work. I am because we are.

cidades no chão

Mais um fragmento da primeira ação do Expressando Cidades, realizado em 2017. Relembro deste laboratório que realizei com Adelly Costantini e Negalê Jones, em especial, deste momento em que escrevi e me movimentei sobre esta base microfonada.

Unir as palavras ao mover do corpo, o mover ao sonorizar. Escrever sobre a cidade nesta base é criar paisagens sonoras a partir do chão.

Seguiremos nesta pesquisa.

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Another fragment of the first action of Expressando Cidades, held in 2017. I recall this lab that I have done with Adelly Costantini and Negalê Jones, especially, this moment when I was writing and moving on this base with microphones.

Matching the words to the body movement, the movement to the sounding. Writing about the city over this base is like creating soundscapes from the ground.

We will keep up with this research.

Sensível à rua, sensível na rua

Domingo, 27/05, participamos do evento Angel de Portas Abertas, com o Roteiro de Sensibilização Urbana. A intenção foi fazer uma caminhada pelo entorno da Escola Angel Vianna, com atenção aos sentidos, estímulos corporais e sentimentos que o percurso evocava.

No percurso que desenhei, imaginei que certas sensações seriam estimuladas a partir da passagem por certas ambiências. De certo modo, algumas sensações corresponderam ao que havia premeditado. No entanto, os participantes trouxeram tantas percepções mais profundas, delicadas e conectadas aos seus próprios universos de memórias, que resultou numa experiência quase inversa: eu pretendia sensibilizar os participantes e quem ficou sensibilizada fui eu!

Obrigada a Escola Angel Vianna pela oportunidade e obrigada aos participantes por se entregarem ao roteiro e a partilharem suas sensibilidades.

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Last Sunday, 05/27, I was engaged in the event Angel de Portas Abertas, with the Urban Sensibility Walk tour. The intention was to take a walk around the Angel Vianna School, with an special awareness to the senses, to the body stimuli and the feelings that the places evoked.

The tour was designed in a way to stimulate certain sensations by passing through certain ambiences. During the tour, some sensations corresponded to what we had premeditated. However, participants brought up perceptions that were so much deeper, more delicate and connected to their own universe of memories that it resulted in an almost inverse experience: I wanted to sensitize participants and, in the end, who was sensitized was me!

I would like to thank Angel Vianna School, for the opportunity, and to the participants,  for jumping into this experience and for sharing your sensibilities.

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Fotos: Juliana Lopes Pinto

Sensibilidade urbana

Relendo o ultimo post, tive a sensação de que a forma como me expressei poderia ser melhorada. Existe uma dificuldade clara em se falar de questões sociais, econômicas e urbanas no Rio de Janeiro, sem cair num excesso de romantismo, de inocência ou mesmo de rigidez.

Quando falo de pessoas bem vestidas e bem calçadas que caminham pelas ruas do Centro e que não olham atentamente ao redor, falo como alguém que já foi uma dessas pessoas e que, inevitavelmente, em algum momento, posso vir a ser novamente. Já trabalhei no Centro e caminhava todos os dias, da casa ao local de trabalho. Nem sempre conseguimos olhar atentamente a toda a realidade que nos circunda, nem sempre é possível, ou é emocionalmente viável.

Individualmente, parece ainda mais difícil sustentar esse olhar e conceber uma ação mais efetiva para gerar qualquer mínima mudança. Coletivamente, essa percepção e essa consciência podem ganhar mais força e gerar processos mais sólidos na cidade.

Nesse sentido, no próximo domingo, 27/05, as 11h, participarei do evento Angel de Portas Abertas, com o Roteiro de Sensibilização Urbana. Conduzirei o passeio pelo entorno da Escola Angel Vianna, com a atenção voltada às sensações e aos sentimentos que o percurso evoca. O participante é convidado a criar seus próprios mapas e diários de bordo, para que, a partir destes registros de sensibilidades, se possa refletir coletivamente sobre a forma da cidade e seus impactos no individuo.

Vamos ampliar nossa sensibilidade urbana e nossa consciência urbana coletiva!

https://www.facebook.com/events/1755377247861537/

programacao

 

corpo urbano

Quarta-feira, 16 de maio, participei de uma intervenção silenciosa na Cinelândia. Dirigida por Adelly Costantini, a intervenção foi feita com gotas de tecidos penduradas em uma árvore, na intenção de que os performers se movimentassem a partir da sensação do corpo preso e solto, aprisionado e liberto.

A árvore que tinha estrutura para receber tal intervenção também tinha sido escolhida por uma família em situação de rua. Portanto, toda a montagem da intervenção foi dialogada e negociada com os habitantes daquele espaço.

Estar pendurada sobre aquela realidade me trouxe questões muito profundas, sobre o quanto estamos tao perto e, ao mesmo tempo, tão distantes dessas pessoas e desta questão social, política e urbana.

Será que estamos mesmo com os pés no chão, conscientes de toda a disparidade que nos circunda e atuantes nesta realidade, ou será que estamos apenas flutuando em imagens idealizadas de nossas comunidades do Instagram, transitando de Uber em Uber, sem nem chegar nem perto deste chão muito mais áspero?

E o que surpreende é que existe algo macio e delicado no meio desta aspereza. Talvez fossem olhares mais verdadeiros e doces que os das pessoas bem vestidas e bem calçadas que transitam pelo Centro. Existe um olhar que tem tempo de olhar, porque pessoas bem vestidas e bem calçadas caminham por ali, mas seu olhar muitas vezes não acompanha os passos, ele acompanha apenas a tela de outras realidades que não aquela.

Estar pendurada sobre essa realidade rompeu, ainda que minimamente, com aquele ritmo da cidade e retirou o olhar da tela para o olhar da realidade. Foi necessário tirar os pés do chão, para ver o quanto ele é duro e áspero. Foi necessário que estivéssemos pendurados sobre essas pessoas, para que elas pudessem ser vistas.

O corpo artístico será sempre um corpo político e, para mim, será sempre urbano.

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Wednesday, May 16, I was part of a silent intervention in Cinelandia. Directed by Adelly Costantini, the intervention was developed with drops of aerial silks that were hung on a tree, in which performers had to move based on the sensation of the body contracted and released, imprisoned and released.

The tree that had the structure to receive such intervention had also been chosen by a homeless family. Therefore, the preparation for this intervention was dialogued and negotiated with the inhabitants of that space.

Being hung over that reality has brought me very deep questions about how close we are and, at the same time, so far from these people and this social, political and urban issue.

Are we really with our feet on the ground, aware of all the disparity that surrounds us and acting to change this reality, or are we just floating through idealized images of our Instagram communities, transiting from Uber to Uber, without even getting close to this much more rough ground?

What was surprising is that there is something soft and delicate in the midst of this roughness. Perhaps was the look that was truer and sweeter than the ones of the well-dressed people who walk through the city center. There is a look that has time to look, because people well dressed people pass through that place, but their looks often does not follow the steps, they only look to the screens that show other realities that might not even exist.

Being hung over this reality has broken, albeit minimally, with the rhythm of the city and has withdrawn the look from the screen to look the reality. It was necessary to remove our feet from the ground, to see how hard and rough it is. It was necessary that we were hanging over these people so that they could be seen.

The body of art will always be a political body and, for me, it will always be an urban body.

*sorry for the bad translation.

 

Quem olha por nós*

Já tem um tempo que queria escrever sobre a pixação da fachada do Pateo do Collegio, em Sao Paulo, ocorrida no início do mês passado, e que considerei, apesar de todas as controvérsias e danos cometidos, simplesmente genial.

Duas pessoas pixaram em letras garrafais a frase “olhai por nóis”, na fachada do Pateo do Collegio, patrimônio histórico, católico, em frente ao qual muitas pessoas em situação de rua dormem diariamente.

Achei a pixação genial, porque questiona sobre o quê simboliza aquele patrimônio religioso e até que ponto a função real daquele patrimônio para a sociedade ainda condiz com o símbolo ou o valor que ele evoca.

Não defendo a depredação do patrimônio cultural, até porque trabalhei anos por sua preservação. No entanto, penso que o patrimônio cultural só seguirá tendo sua função social e política se seu significado for continuamente ressignificado pelos cidadãos. Questionar estes valores faz parte deste processo.

Escrever sobre este fato, após quase três semanas, não deve ter sido por acaso. Escrevo após o incendio e desabamento de um edifício no centro de São Paulo, que estava em situação de abandono e era ocupado por moradores sem teto.

O edificio abrigava cerca de 170 familias. Este fato fez com que alguns colegas, arquitetos e urbanistas, relembrassem, nas redes sociais, pesquisas já publicadas anteriormente, que colocam que o número de imóveis vazios no Brasil supera o número de pessoas sem moradia. Portanto, não existiria, de fato, um deficit habitacional, mas sim uma falta de políticas públicas que viabilizassem o acesso à moradia digna.

A prece, escrita nas paredes do Pateo do Collegio, parece cada vez mais necessária, porque afinal: quem olha de fato por todos e não só para alguns privilegiados?

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I have been willing to write about the graffiti that was written on the Pateo do Collegio facade in Sao Paulo, occurred last month, and that I considered it, despite all the controversies and damages, just great.

Two people penciled the phrase “look for us” on the facade of the Pateo do Collegio, a historical, Catholic heritage, in front of which many homeless people sleep daily.

I found the pixação genial, because it questions what religious heritage was symbolizing and to what point the function of that heritage for society was still matching with the symbol or the value that it evokes.

I do not defend the depredation of cultural heritages, because I have worked for years for its preservation. However, I believe that cultural heritage will only continue to have its social and political function if its meaning is continually re-signified by citizens. Questioning these values ​​is part of this process.

Writing about this fact, almost three weeks later, should not have been by chance. I write after the fire and the collapse of a building in downtown São Paulo, which was abandoned and has been occupied by homeless residents.

The building was hosting about 170 families. This fact led some colleagues, architects and urban planners, to recall previously published researches, which indicate that the number of vacant properties in Brazil exceeds the number of people without housing. Therefore, there would not actually be a housing deficit, but a lack of public policies that would enable access to decent housing.

The prayer, written on the walls of the Pateo do Collegio, seems increasingly necessary, because after all: who will really look for us all and not only for some privileged parts of society?

 

*Por falha técnica, este post foi publicado com uma semana de atraso.

Algumas fontes de consulta:

https://jornalistaslivres.org/2017/07/o-problema-habitacional-no-brasil-e-luta-por-moradia/

http://www.cbicdados.com.br/menu/deficit-habitacional/deficit-habitacional-no-brasil

http://www.fjp.mg.gov.br/index.php/produtos-eservicos1/2742-deficit-habitacional-no-brasil-3

https://www.noticiasaominuto.com.br/brasil/582211/reparo-do-pateo-do-collegio-entra-em-fase-mais-tecnica